Volteio
Meu pai, tão saudoso, por vezes me trouxe no colo ou ao seu lado, nos bancos da majestosa máquina da Estrada de Ferro Sorocabana.
Eu não tirava os olhos da janela do trem, para ver os postes de madeira, passarem com velocidade absurda. Tão pequeno, eu não entendia como os postes poderiam correr tanto e a paisagem, tão bonita, com morros distantes, esverdeados, quase estáticos.
Tanto tempo se passou, mas as lembranças estão vivas.
Ao visitar Sorocaba nos dias de hoje, em meio às construções modernas e gigantescas, com lojas de vitrines brilhantes, e um trânsito não muito calmo, eu me lembrava do romantismo dos velhos tempos.
Absorto em meus pensamentos conheci Ana... uma linda e culta mulher, poliglota, jovem; uma sorocabana.
Ao lhe revelar meus sentimentos, ela, sorrindo, me convidou para um passeio, junto a outros amigos seus. Estranhei, mas como apreciador da beleza da mulher, jamais poderia declinar do convite.
Ela me levou à um fantástico sonho.
Todos; a Ana, os seus amigos e amigas, e eu, nos reunimos rapidamente em uma linda e florida praça e tomamos, cada um, de uma bicicleta.
Muito perto dessa praça, a Ana me apresentou a suntuosa ciclovia de Sorocaba.
Passavam, alguns rapidamente e outros bem devagar, com suas namoradas, filhos e filhas, enquanto outros, parecia, iam para o trabalho.
Pegamos nossa bicicleta e entramos no comboio moderno que me remeteu, novamente, às reminiscências da velha região sorocabana, tão apreciada por meu pai.
Eu pedalava e um vento suave fazia o cabelo loiro de Ana flutuar, como em um sonho mágico.
Raios de sol faziam seu cabelo brilhar; de repente passávamos sob uma frondosa e florida árvore, quando nos refrescávamos.
E eu vinha do sonho para a realidade, quando passávamos pelos jardins e prédios modernos; de repente lírios e rosas do caminho, me punham de novo, como que por milagre, na fantasia.
Ana sorria muito e todos conversavam, também sorrindo. Alguns passavam com roupas de atletas e uma linda mulher loira passou com um discreto maiô preto. Atrás dela, outra mulher, em sua bicicleta rosada, olhava atentamente seus dois filhos que, alegremente, conversavam não sei o que.
E foi assim que Ana me mostrou que para ser moderno não é preciso enterrar o passado.
Como em um milagre o novo e o romântico passado estavam presentes naquela linda ciclovia.
Passávamos por jardins e bancos das praças que nos levavam à nostalgia dos tempos idos, mas de repente estávamos em outro lugar, com lanchonetes famosas e livrarias tão bonitas e modernas.
Uma amiga de Ana dizia alegremente que havia se recuperado de um grave problema de saúde, desde que começou a freqüentar assiduamente a ciclovia, percorrendo todas as suas inúmeras pedaladas.
E ao passar por um gigantesco prédio, ela largou o guidão da bicicleta e apontou para o prédio, dizendo que ali se instalava o consultório do Dr. Mário, um médico famoso em todo o país.
Impossível deixar de notar, um homem de compleição atlética, em uma bicicleta de corrida, avermelhada, em trajes esportivos, que, no entanto, fazia um esforço inusitado para controlar a velocidade e vinha bem devagarzinho, acompanhando um menininho que pedalava vigorosa e rapidamente o seu triciclo.
Chegamos a uma descida suave e os jovens largavam também os seus guidões para chamar a atenção das lindas moças, que pedalavam por perto.
Eu continuava ensimesmado. Nada me afastava da beleza de Ana e seus lindos cabelos que esvoaçavam na linda paisagem.
De repente uma ladeira para subir e lá no topo a gente se deixava levar pela descida, em velocidade, até que novamente nos alcançávamos.
Descendo a ladeira eu continuava “parado” na Ana sorocab’Ana. Sonho bacana!
Flores... Ana, vento, Ana... flores.. Ana.
Eu não queria, mas o dia estava chegando ao fim.
Eu teria, agora, que acordar desse lindo sonho.
Paramos todos em uma casa de sucos naturais, à margem da ciclovia.
Cada um pediu o suco de sua fruta preferida e comentava, entre um gole e outro, o que idiossincraticamente viu no longo e belo passeio.
Cada um viu, mesmo, uma coisa que só a ele foi permitido ver. O passeio coletivo ganhou personalidade.
Beijinhos de despedida e todos se apressaram em anotar nos seus celulares os telefones dos companheiros preferidos para então marcarem um novo encontro na ciclovia.
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